Carlos Oliveira

Estudante de Jornalismo – Repositório de trabalhos

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Novos métodos, velhos crimes – junho 2009

Publicado por Carlos em Julho 10, 2009

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Mercado da pornografia infantil cresce no meio virtual e pode despertar novos pedófilos

Por Carlos Oliveira e Fabiana Colombo

“Alguns retardados estão ameaçando me denunciar por possuir CP. Devo me preocupar”? Este é o título de um tópico num fórum virtual pouco conhecido. O autor, da Inglaterra, desabafa seu medo de ser preso por guardar materiais ilegais no computador, detalhando especificações técnicas de como está sendo perseguido por autoridades.
Mais preocupante do que o fato de CP se referir a pornografia infantil (sigla para Child Pornography) é ler inúmeras respostas de apoio ao autor do tópico, que vão de dicas sobre a legislação britânica a depoimentos de ex-profissionais da internet, que entendem o funcionamento dos rastros virtuais deixados em cada acesso à rede.
O potencial de socialização da web trouxe à tona grupos que discutem pedofilia de forma inquietante. Trocando links com fotos e vídeos, os usuários, que muitas vezes  se mantêm anônimos, reforçam o mercado de pornografia infantil.
Com a facilidade de se achar material pornográfico na internet, tornou-se muito complicado controlar os crimes que se espalham pela rede, muitas vezes de forma anônima. Para combater esse crime quase invisível, foram criadas associações como a SaferNet Brasil, que trabalha junto ao Ministério Público Federal recebendo denúncias de crimes na web, na tentativa de controlar esta prática.
Segundo a instituição, de janeiro a outubro, 76.675 denúncias foram recebidas pela Central Nacional de Denúncias de Crimes Cibernéticos. Deste total, 62% eram casos de pedofilia, em que 90% do material estava hospedado no Orkut, site de relacionamento do Google e de grande audiência no Brasil.

A Pedofilia

Para a psicanálise, a pedofilia é um tipo de perversão sexual, assim como a zoofilia (atração sexual por animais), o sadismo e o masoquismo. Todas elas são enquadradas como parafilias — distúrbios sexuais que envolvem fantasias que fogem à norma. Parafilias como o sadismo e o masoquismo podem ser saudáveis, desde que praticadas com o consentimento dos envolvidos e que não sejam o único meio pelo qual a pessoa consegue atingir prazer sexual. No terreno da pedofilia, contudo, as relações são mais complicadas.
A rigor, pedofilia é a atração sexual de um adulto por crianças menores de 14 anos. Justamente por envolver menores, é muito difícil precisar o consenso bilateral numa relação pedófila, o que resulta em diferentes interpretações na Justiça de cada país. Para complicar, há o dado cultural: muitos proíbem práticas pedófilas por lei, mas abrigam um consenso social que potencializa os atos. No próprio nordeste brasileiro, por exemplo, há comunidades em que a iniciação sexual da filha deve se dar com o pai: a virgindade da garota é propriedade do genitor.
René Schubert é psicanalista e já tratou casos de pedofilia, tanto de vítimas como criminosos. Ele comenta que se deve diferenciar aqueles que vão ao ato daqueles que não vão, como é o caso dos pedófilos de internet, mas é preciso reprimir este comportamento antes que ele se torne uma ação, pois aquele que procura fotos de pornografia infantil na web possui um forte potencial de agressor. E o perigo da internet está justamente em possibilitar que o agressor surja.

A internet cúmplice

A internet da pedofilia agrega dois fatores: a facilidade de se achar vários tipos de arquivo e uma sensação de anonimato. Qualquer usuário com mínimo conhecimento e alguma curiosidade pode, com alguns cliques do mouse, acessar fotos, vídeos e depoimentos que retratam cenas pedófilas. Mesmo para aqueles que não possuem o distúrbio psicológico da pedofilia, essa situação pode servir como uma porta de entrada de um hábito pouco saudável: a banalização do outro.
A exposição contínua à pornografia infantil pode reforçar uma tendência preocupante da sociedade atual: o culto do corpo prematuro como algo sedutor e erotizado. O vício pela pornografia infantil tende a surgir aí, e pode tanto despertar traços pedófilos em quem nem imaginava os possuir, como incentivar pessoas a cometerem estes atos no mundo real.
Com tantas possibilidades que a internet traz, o mais importante é desenvolver discernimento. Sobre a proteção das crianças, Schubert recomenda o diálogo. Para o psicanalista, pode-se usar o período de afastamento (quando os pais deixam de dar banho no filho, por exemplo) para ensiná-los o valor do próprio corpo. “A criança é livre e espontânea, então se uma pessoa mal intencionada se aproveita, a criança pode entender como uma brincadeira”, informa.
Assim, a melhor forma de prevenir o abuso de menores é conversar com as crianças sobre sexualidade, para que elas possam identificar um criminoso e não ser alvos tão fáceis.

Lei Masha Allen

Masha Allen nasceu na Rússia em 1993. Aos 8 anos foi adotada por Mattew Mancuso, americano de Pittsburgh, acreditando que teria uma vida de qualidade. Por cinco anos, contudo, até Allen completar 13 anos, Mancuso abusou sexualmente dela e divulgou materiais dos atos na internet, revelando que a adotara somente para explorá-la. Autoridades do país conseguiram identificá-la em fotos, libertando-a e colocando Mancuso na prisão.
O depoimento dela revela uma das maiores sequelas na exploração da pornografia infantil: “Já que o Matthew colocou imagens minhas na internet, o abuso continua”, disse Masha à Justiça americana.  O crime virtual traz uma dimensão expositória à cicatriz, o que motivou a elaboração da lei Masha Allen, em 2006, que possibilita que vítimas de abuso cujo material tenha sido postado na internet processem os criminosos. A lei fez parte de uma maior, chamada “Adam Walsh Child Protection and Safety Act”, do mesmo ano, que prevê monitoramento constante dos criminosos como Mancuso.

Publicado em 2009, Faculdade, Mídia Impressa, Tutoria | Com as tags : , | Deixar um Comentário »

 
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