Internauta brasileiro é o que passa mais tempo na rede; interagir com outras pessoas e participar de redes sociais são suas preferências.
Por Carlos Oliveira, Jaqueline Ogliari e José Coutinho Júnior
A origem da internet remonta ao final da década de 1950, quando o Departamento de Defesa dos EUA formou a ARPA – Agência de Projetos de Pesquisa Avançada, em inglês. O objetivo era fomentar a computação interativa, de modo a promover a pesquisa acadêmica e garantir a supremacia militar no pós-guerra. Essa integração entre computadores foi atingida mediante sucessivas inovações tecnológicas, que acabaram por criar o conceito de rede, presente até hoje.
No começo de 1990, a Arpanet, rede da ARPA, já estava obsoleta e foi retirada de operação. Diversos provedores, muitos usando a estrutura da ARPA, começaram a montar suas próprias redes, germinando o que viria a ser a internet como a conhecemos hoje: a rede mundial de redes. A internet, em sua origem, sempre prezou por uma arquitetura descentralizada – que, inclusive, possibilita o seu funcionamento. Isso ajudou na sua disseminação em outros países, incluindo o Brasil.
Em 1991, o Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) brasileiro lançou um projeto que criou a RNP (Rede Nacional de Pesquisas), que tinha como objetivo implantar a internet no Brasil, a fim de conectar diversos centros de pesquisas do governo e universidades. Em 1994, a rede já abrangia mais de 400 instituições de pesquisas de 21 estados diferentes do país, além de contar com um total de 60 mil usuários, todos pertencentes ao setor acadêmico. A rede ficou restrita ao meio acadêmico até 1995, quando o Ministério das Comunicações e o Ministério da Ciência e Tecnologia resolveram criar um modelo mais abrangente de internet, que permitisse o uso da rede por todos os setores da sociedade. Cria-se, em parceria com a EMBRATEL, o primeiro servidor WWW (World Wide Web) do país.
De 1995 até hoje, a internet no Brasil se encontra em plena expansão. Dos 135 milhões de usuários da América Latina, 50 milhões são brasileiros. Pesquisas realizadas pelo I.T.U. (Comitê Internacional de Comunicação, em inglês) e pelo Nielsen Net/Ratings indicam que 26,1% dos internautas brasileiros terão acesso à internet em suas casas até o final de 2008. Apesar do aumento, o Brasil ainda continua atrás de países como Estados Unidos e França, que têm 72,5% e 58,1% de seus usuários com internet em casa, respectivamente. Mesmo assim, somos o país que passa mais tempo na internet. O brasileiro passa, em média, 23 horas e 12 minutos conectado à rede por mês, enquanto que França e Estados Unidos passam 20 e 19,3 horas, respectivamente, no mesmo período. Isso representa 11,6 dias de internet por ano para os brasileiros.
O perfil do internauta brasileiro – O que faz com que o brasileiro goste tanto de navegar na internet, a ponto de ficar mais tempo na rede do que os americanos? Para Rosa Maria Farah, professora da PUC-SP e coordenadora do NPPI – Núcleo de Pesquisas da Psicologia em Informática, “não há dados concretos sobre isto. Temos lendas acadêmicas de que o brasileiro é um povo que tem prazer no contato, é mais extrovertido e lúdico, mas não passa de uma observação. Mas o que existe de fato é uma presença maciça do público brasileiro na internet”. O site Alexa realizou um estudo no qual apresenta os 100 sites mais acessados pelos brasileiros. Os cinco sites mais visitados por usuários da rede (Orkut, Google, Windows Live, UOL e YouTube) indicam que os principais interesses do brasileiro na internet são participar de redes sociais, informar-se e interagir com outras pessoas, seja através de e-mails, troca de conteúdos, jogos on-line ou pelo comunicador Messenger – programa que tem 11% de seus usuários no Brasil; somos o país que mais usa o Messenger (por volta de 30,5 milhões de pessoas o utilizam). Segundo Alexandre Jungermann, coordenador de marketing do portal UOL, “a oferta de conteúdo (notícias), serviços (comércio eletrônico) e ferramentas (redes sociais) tornam a Web extremamente atraente para o brasileiro”. É difícil encontrar um brasileiro que utilize regularmente a internet e não tenha sua página pessoal no site de relacionamentos Orkut. Estatísticas do site indicam que pelo menos 51% dos usuários do Orkut são do país. Esse número, no entanto, não corresponde à realidade, pois existem muitos usuários que mentem em relação à nacionalidade, por isso é inegável que a ampla maioria das contas no site são de brasileiros.
Os portais, por sua vez, apresentam desde as notícias do dia a informações específicas sobre determinado assunto (música, jogos, esportes, entre outros). O UOL, portal mais acessado do país e que conta com 1,74 milhões de assinaturas, teve mais de 16,5 milhões de visitantes no mês de agosto de 2008. Os diversos canais, criados para atender às demandas de todo tipo de usuários, são responsáveis por grande parte dos acessos aos portais: cada canal é visitado por pelo menos 1,5 milhão de usuários todo mês.
Uma atividade ainda incipiente, ao menos no Brasil, é a compra pela internet. Um estudo de 2007, encomendado pela Visa e realizado pela AmericaEconomia Intelligence na América Latina e Caribe (ALC), apontou 7 milhões de internautas, ou 3,7% da população brasileira, como compradores de produtos pela internet. Houve no ano da pesquisa movimento de US$ 4,89 bilhões, o maior da América Latina; nos Estados Unidos, os números totalizaram cerca de US$ 120 bilhões, segundo o U.S. Census Bureau. A cifra brasileira já é significativa, mas, como essa movimentação foi 116% maior do que 2006, pode-se esperar um montante ainda mais significativo em 2008.
Segundo pesquisa do IBOPE/NetRatings, 52% dos internautas brasileiros são homens e 48% mulheres. Quanto à escolaridade, 35% dos usuários cursam ou cursaram o ensino fundamental, 28% o ensino superior e 23% o ensino médio. As faixas etárias que mais acessam a rede vão dos 12 aos 17 anos (18%) e dos 25 aos 49 anos (42%). A relação entre classe social e acesso à internet se mostra clara no Brasil: 82% dos membros da classe alta têm conexão de rede em casa, ao passo que apenas 4% da classe E têm o mesmo tipo de conexão. Devido ao alto custo para se manter uma conexão de alta velocidade, as classes mais baixas geralmente só usam a internet através de lan houses ou de centros comunitários.
Inclusão digital – Ao mesmo tempo em que vemos a quantidade de pessoas que acessam a internet crescer – ainda que muitos usem centros comunitários, escolas ou lan houses – notamos que o número de internautas brasileiros ainda é pequeno. Algumas pessoas nunca usaram o computador, quanto mais acessaram a rede, porque não têm condições de comprar um e em suas cidades quase não existem pontos de acesso. Ainda que pareça desnecessária a discussão sobre inclusão digital, já que existem problemas maiores atormentando a sociedade, como a violência, o desemprego e a saúde, o acesso à internet restrito aos que têm maior poder aquisitivo demonstra de forma gritante a desigualdade entre as pessoas. Constam nos dados da WBI Brasil que, em abril de 2008, as classes A e B (27,6 milhões de pessoas) perfaziam 50% do número de internautas, enquanto que a classe E quase não possuía participação significativa (vide gráficos).
Tais números apontam para a necessidade de se pensar em políticas públicas de inclusão digital, em que mais pessoas possam ter acesso à tecnologia e, ao usufruir dela, poderem melhorar como cidadãs. No entanto, como fazer com que os demais brasileiros sem um computador por perto possam ser incluídos no mundo digital?
Inclusão digital não é um conceito tão óbvio. Implica usar a tecnologia para promover melhores condições de vida à população. Assim, ser incluído digitalmente não significa necessariamente ter um computador com acesso à internet e visitar sites de relacionamento ou de diversão. A inclusão digital é, principalmente, a possibilidade de aproveitamento do computador e das mídias digitais como instrumento de cidadania, de tal modo que as pessoas possam produzir conhecimento e participar ativamente da sociedade a partir da internet.
Há ainda mais fatores que complicam o conceito. Segundo Eugênio Trivinho, professor da PUC-SP e vice-coordenador do Programa de Estudos Pós-Graduados em Comunicação e Semiótica, em debate na Semana de Jornalismo da PUC-SP em maio de 2008, a inclusão digital sempre será um problema porque a lógica da tecnologia é a lógica da exclusão; a constante reciclagem de softwares e hardwares contribuiria para a desigualdade entre os que têm a mais avançada tecnologia e aqueles que usam computadores e equipamentos sucateados, excluindo-se dos demais. Há com o que se concordar da análise de Trivinho, mas mesmo não utilizando computadores de última geração, e sim tecnologia suficiente para incluir o cidadão no mundo digital, é válido pensar em políticas públicas que promovam melhores condições às pessoas.
Em algumas pequenas cidades brasileiras, há pontos de acessos gratuitos bem sucedidos e que beneficiaram a educação desses municípios. Sud Menucci, cidade do interior de São Paulo, com 7,5 mil habitantes, foi a primeira do país a disponibilizar o acesso Wi-Fi (sem fio) para todos os seus moradores, e conseguiu reduzir à metade o número de analfabetos desde 2003, quando a conexão foi implantada. Cerca de 50% dos domicílios estão conectados à internet, e a cidade se sente mais integrada com o resto do mundo embora ainda seja tão pequena. Em Quissamã, interior do Rio de Janeiro, os 15 mil habitantes têm acesso à Web por meio do projeto Internet Cidadão, com conexão feita através de ondas de rádio sem depender de linha telefônica, por meio de torres de transmissão ao longo da cidade. Aos que não têm computador, há instalados os telecentros, chamados Quissanets, em bairros mais populosos e nas zonas rurais. Medidas como estas podem ajudar no desenvolvimento do ensino e facilitar as pesquisas dos estudantes, melhorando seu desempenho nas escolas.
A internet é utilizada pelo brasileiro principalmente para o seu lazer (sites como o Orkut ou o programa Messenger); para muitas pessoas, porém, a rede é um meio de obter conhecimento para que possam melhorar de vida. Iniciativas como a criação de centros comunitários e a diminuição do custo da conexão de banda larga são importantes para integrar as pessoas de baixa renda, pois apesar da grande quantidade de usuários, a internet ainda é utilizada principalmente por pessoas com renda alta. É necessário que todos os setores da sociedade tenham um amplo acesso à internet, e que aprendam a usar a rede de forma correta, tanto para o lazer como para agregar conhecimento.
O impacto da internet nos jornais e na televisão
A internet é um veículo único de comunicação, pois permite ao usuário interagir e criar conteúdo (os blogs, que possibilitam a divulgação e o debate de textos de internautas, e sites como o YouTube, no qual os usuários podem disponibilizar vídeos feitos por eles próprios para que todos vejam, são exemplos disso). No entanto, essa grande quantidade de informações torna a rede caótica: muitas das informações encontradas são superficiais, ao apenas contarem um fato sem contextualizá-lo na realidade social e política da sociedade, e outras informações são falsas. Segundo o jornalista Lourival Sant’Anna, “A internet é estímulo para saber mais. Ela funciona como um teaser, que deixa um gosto de ‘quero mais’. O rádio e a TV também fazem isso. Então, na manhã seguinte, devemos dizer ao leitor o que é verdade, o que é importante e o que significa (a notícia)”.
Os jornais, porém, ainda não estão cumprindo esta função; como afirma Santa’Anna em seu livro O destino do jornal (270 pp., Editora Record, Rio, 2008), “o jornal ainda está muito mais estruturado para contar ‘o quê’ do que para explicar ‘por quê’”. A forma da notícia, portanto, ainda é tão superficial quanto a apresentada na internet. A televisão também não escapa do cenário complexo: a internet atrai telespectadores, com sua maior gama de escolhas na programação, mas ainda exige uma conexão veloz – portanto, investimento financeiro. No meio termo, a TV digital é uma tentativa no sentido de oferecer alguma interatividade da rede na televisão. Para que os jornais não percam seu espaço para a internet, é preciso que tanto os jornalistas quanto os próprios jornais percebam que o seu papel é o de contextualizar as informações, dando condições ao leitor compreender a relevância dos acontecimentos no meio de tantas informações.
Publicado no Contraponto