“Utilizamos os cookies para melhorar a qualidade do nosso serviço, armazenando as preferências do usuário, melhorando os resultados das pesquisas e a seleção de anúncios e rastreando as tendências dos usuários, como, por exemplo, como as pessoas pesquisam” ( Trecho da Política de Privacidade do Google[1])
A organização da internet e o Google
O modo como a internet se organizou neste começo de século compreende um constante conflito entre a centralização e descentralização. A despeito dos intuitos militares, a concepção embrionária da web passou por mãos geograficamente separadas.
Isso se deve, é forçoso dizer, por mérito de pesquisadores eminentes, contudo revela algo estrutural: a rede, como o próprio nome já explicita, é uma trama de pontos, com localização e relevância díspares.
Esses pontos, muitas vezes microrredes, abalam qualquer tentativa de concentração de tráfego e representam uma hierarquia cumulativa em que pode-se ver tantas ramificações quanto próximo é o olhar. Não à toa – longe disso-, Manuel Castells utiliza a metáfora da galáxia para representar a internet[2].
Ainda que passado meio século desde seus primeiros passos, a internet ainda apresenta grandes dúvidas no começo do século XXI. Embora a técnica tenha acompanhado o desenvolvimento da infra-estrutura, com profissionais lendo as entranhas mecânicas das máquinas tão bem como psicólogos leem mentes (com a exceção dos computadores serem mais previsíveis), outras áreas são mais complexas. Dentre essas, situa-se a monetização: o cerne da discussão
Isso é verdade tanto para aqueles que veem na internet uma ferramenta para o estabelecimento de poder como para aqueles que veem nela um potencial de emancipação. Numa incômoda posição, difícil de ser classificada, encontra-se o Google, certamente a mais importante corporação no que tange à web e seus softwares. De um lado, ele facilita e agiliza o acesso a dados, em múltiplas plataformas, do mundo inteiro para a grande maioria dos países. Por outro lado, encontra-se como monopolizador desse serviço, lugar necessariamente de tensão na rede.
O questionamento é caricatural, mas importante: se o Google promovesse uma hiperbólica brincadeira do dia 1º de abril e desligasse seu servidores por alguns minutos, o que seria do mundo? A resposta é bem menos divertida, pois muitos usuários da internet utilizam serviços hospedados e/ou relacionados ao Google, ainda que indiretamente.
Mais que isso, muitos usuários foram condicionados, mediante repetição, a usar a internet do Google. Por esse referencial não deve-se entender o browser da empresa, mas sim um estilo de navegação e uma expectativa do ato de usar a internet germinados dela.
Geert Lovink, midiativista fundador do Institute of Network Cultures, conta que uma vez lhe contaram, ludicamente: “Nem uso mais internet, uso o Google.”[3] Pode-se estender: não ver vídeos na internet, ver Youtube.
A dependência dos usuários se dá por uma subreptícia associação entre o produto (Google) e a plataforma (internet): ocorre uma imbricação das partes. O mais interessante, contudo, é como a empresa capta o gosto dos usuários de modo a realizar essa associação.
O exame da publicidade
A forma mais primitiva para se saber o que alguém quer é perguntando à pessoa. As respostas são virtualmente infinitas, dada a inespecificidade do questionamento. Já ao delimitar as opções em A e B, há ao mesmo tempo uma cobrança coercitiva e uma resposta mais objetiva.
Tem-se assim um recurso de extrema valia quando da concepção do produto para venda: a avaliação espontânea por parte de testadores. A pergunta “A ou B” é feita a pessoas sem ligação ao produto, de modo a mensurar o gosto de um possível público consumidor. Nada mais do que um exame remunerado.
Michel Foucault tratou da questão do exame em Vigiar e Punir. Verticalizando historicamente os conceitos de acompanhamento médico e prova escolar, entre outros, coloca:
“O exame combina as técnicas da hierarquia que vigia e as da sanção que normaliza. É um controle normalizante, uma vigilância que permite qualificar, classificar e punir. Estabelece sobre os indivíduos uma visibilidade através da qual eles são disciplinados e sancionados.”[4]
Associando-se os dois exame expostos, é difícil achar uma paralelo num primeiro momento. Principalmente, o exame de teste de produto parece carecer de punição, uma vez que não pressupõe certo ou errado. Isso ocorre porque o exame é direcionado ao produto, e não ao testador.
A punição ao testador caso ele não escolha o produto idealizado não é interessante por um único fator: ele é um consumidor em potencial. Assim, uma crítica perspicaz ao produto pode ser melhor recebida pelos idealizadores da venda do que uma aceitação tácita.
É forçoso fazer essa ênfase pois a incorporação, por parte do marketing, do exame descrito por Foucault é preciso nos outros componentes: a vigilância e a classificação.
O Google e as Webs
Atuante desde 1998, o Google atingiu sucesso na internet usando um tipo especial de processo iterativo, que pode ser chamado de web 3.0, a rede semântica.
Se a web 1.0 cresceu com a tentativa e erro, a web 2.0 aprendeu que pode-se monetizar e explorar conteúdos feitos e enviados pelos usuários, estes voluntariando-se para emitir conteúdo.
A web 3.0 demonstra que é possível categorizar os usuários-consumidores mediante vigilância contínua. Ela funciona tecendo relações automáticas por meio de dados previamente coletados. Como resultado é capaz de produzir o que pode ser chamado de publicidade 3.0: publicidade automaticamente indexada, com valor semântico artificialmente construído mas, ainda assim, coerente.
Se um usuário digita na pesquisa do Google, por exemplo, “apartamento venda centro São Paulo”, duas coisas ocorrerão: em primeiro lugar, sites pertinentes à busca serão sugeridos para acesso e, também, ficará armazenado que esse usuário em especial procurou esses sites. Desse modo, é provável que no próximo acesso ao serviço de e-mail do próprio Google o usuário veja links de publicidade sobre venda de apartamentos no centro de São Paulo.
A situação é ambígua (ou ao menos deveria ser). De um lado, temos a facilidade de um serviço que alia nossas necessidades a anunciantes que as oferecem. Do outro, temos o mesmo serviço, mas que registra cada ação nossa de forma a tecer relação mais ou menos artificiais que nos representam como potenciais consumidores.
O exame foucaultiano e as Webs
Pensando-se na relação entre os três ítens do exame foucaultiano e o modelo de publicidade do Google:
1)“O exame inverte a economia da visibildade no exercício do poder”. Foucault descreveu uma inversão das atenções, dos detentores do poder aos submissos. Em tempos de Indústria Cultural do século XXI, os consumidores-submissos propõem-se a se expôr. Na televisão, Big Brother, na internet, Orkut e Youtube: a Web 2.0;
2)“O exame faz também a individualidade entrar num campo documentário”. O uso da web semântica faz este serviço com maestria, porque não só há um arquivamente contínuo e automático, como também é codificado e armazenado digitalmente;
3)“O exame, cercado de todas as suas técnicas documentárias, faz de cada indivíduo um ‘caso’”. Tem-se aí combinadas as lógicas da web 1.0, 2.0 e 3.0. Primeiramente, o usuário faz uma conta no Google, comunicando-se pela internet 1.0. Depois, emite conteúdo em um site 2.0 como o youtube. Concomitantemente, esse conteúdo é arquivado e analizado, resultando em propagandas 3.0. A chave, novamente, está no ato voluntário de exposição, encorajado desde a web 2.0.
Contrapontos polêmicos
Um exemplo eminentemente prático e curioso, embora faltoso em matéria de respeito, foi um fato ocorrido em fevereiro de 2008[5]. Ideal para explicar o funcionamento da teia de relações artificiais do site de procura, também é um indicador do poder de manipulação de baixo para cima: um modo de enganar o próprio sistema do Google.
Usuários organizados, em número razoável, forçaram a associação entre os termos de procura “Atriz gorda” e “Preta Gil”, por meio de esperto uso da ferramenta de relacões automáticas. A insistência não tardou a juntar semanticamente, no site de procura, os dois binômios. Desse modo, ao se buscar “Atriz gorda”, o site sugeria que se tentasse a procura por “Preta Gil”.
Em maio de 2009, iniciativa parecida acometeu o site Youtube português[6]. Dessa vez a associação foi entre vídeos pornôs e o nome Hannah Montana, da cantora adolescente. Novamente controverso, tem validade no que toca ao lembrete de que nenhum filtro virtual é infalível.
Conclusão
No Panóptico de Jeremy Bentham, descrito por Foucault:
“O dispositivo panóptico organiza unidades especiais que permitem ver sem parar e reconhecer imediatamente. Em suma, o princípio da masmorra é invertido; ou antes, de suas três funções – trancar, privar de luz e esconder – só se conserva a primeira e suprimem-se as outras duas. (…) A visibilidade é uma armadilha.”[7]
Enquanto a web 2.0 incentivou tanto o exibicionismo como o voeyurismo, a publicidade 3.0 está conseguindo fomentar um panoptismo digital ao contrário, em que as três funções – trancar, privar de luz e esconder – são invertidas – se soltar, se iluminar e se mostrar.
Como já comentado, temos, de um lado, um relatório recortado, mas consistente, de nossa individualidade. Por meio desse currículo estendido nos expomos
Em oposição, esse ajuntamento de bytes não está na posse do usuário. Um perfil do Orkut pode ter restrições de acesso a outros usuários, mas não ao Google. O mesmo vale para cada vídeo mandado ao Youtube, cada pesquisa feita no site principal e cada uso de sites relacionados à empresa.
[1] Disponível em http://www.google.com.br/privacypolicy.html#information. Acesso em 07/06/2009
[2] CASTELLS, Manuel. A Galáxia da Internet: reflexões sobre a Internet, os negócios e a sociedade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003.
[3] Fala da palestra “Estamos Preparados para o Público 2.0?” proferida em 14/04/2009, na PUC-SP. Disponível em http://www.youtube.com/view_play_list?p=3CB8FC4404A6528F
[4] [4] FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir. Versão fotocopiada dos capítulos dois e três, p. 154
[5] Matéria disponível em http://www.mundodastribos.com/atriz-gorda-preta-gil-denuncia-o-google.html. Acesso em 08/06/2009
[6] Matéria disponível em http://aeiou.visao.pt/videos-porno-invadem-youtube=f509635
[7] FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir. Versão fotocopiada do capítulo dois, p. 164