“Meu pai associa o que faz (…) a uma aventura no absurdo, um conto de fadas adulto em que ele envolve sua plateia emocional e intelectualmente. Ao invés de serem transeuntes passivos, as pessoas tornam-se participantes ativos. Eles têm que decidir por si mesmos o que está acontecendo e o que se devem aprender da experiência.” (Jenny Abel, sobre seu pai, Alan Abel, no documentário Abel Raises Cain[1])
As palavras do idioma inglês prankster e hoaxer são de difícil tradução por duas razões. Primeiramente, há poucos sinônimos – entre eles “pregador de peças”. Em segundo lugar, podem dizer respeito a, mais do que um conceito ou uma brincadeira, um método de intervenção que consiste em mexer com a tênue linha que separa crítica e diversão. Se há uma terceira razão, ela pode ser a incapacidade da ferramenta tradutora do Google em verter os vocábulos para o Português Brasileiro[2].
Em consonância com a tal tradução, Joey Skaggs e Alan Abel são pessoas cuja atuação é difícil de categorizar. Figuras públicas, os estadunidenses são famosos (ou infames) por colocar a mídia em posições delicadas ao incitar o interesse jornalístico com pistas falsas. Em 1995, Skaggs criou o personagem Baba Wa Simba, um suposto terapeuta da “terapia do rugido”, convidando jornalistas a portarem-se como leões de modo a aumentar a auto-estima. Os pobres profissionais, no afã de realizar uma matéria consistente para seus veículos, submeteram-se ao ridículo. Mal sabiam que não havia o prestígio profissional, e sim somente o ridículo: não só apareceram na televisão rugindo como leões como foram vítimas de um personagem criado, revelando a falta de checagem por parte dos seus veículos (e por que não dizer, de sua própria atuação profissional).
Alan Abel, no começo da década de 90, contratou seu amigo Paul Hiatt para fingir tentar vender um rim e um pulmão numa suposta tentativa desesperada para ganhar dinheiro. O misterioso Tom, o personagem, foi foco de uma reportagem televisiva. Motivado pela discussão sobre a falta de doadores de órgãos, em voga no período, Abel fez o que Skaggs também fez (e faz) magistralmente: trouxe à tona um debate sensível e pertinente e, concomitantemente, criticou a mídia, que se mostrou despreparada. As a(tua)ções de Abel e Skaggs são uma variação de performances em que o privado interfere no público. Quando artísticas e lúdicas, os artistas invadem, de forma educada ou não, o espaço da platéia, que é obrigada a repensar o sentido da interação que está acontecendo.
São exemplos de Midiativismo porque usam justamente a mídia como recurso principal. Na contramão das reflexões simplistas sobre a mídia, em que esta é demonizada, o bom Midiativismo percebe que o conjunto de veículos midiáticos pode – e deve – ser ferramenta de crítica, ainda mais quando o objeto criticado é a própria mídia. Prova primeira dessa verdade é o uso da internet e das ferramentas virtuais pelos zapatistas, em que “teve início uma ocupação da esfera virtual cujos desdobramentos foram decisivos para a continuidade do movimento”[3], reflexão que merece aprofundamento em um trabalho dedicado ao tema.
A reflexão necessária que essas performances incitam é: qual o limite entre o entretenimento e a crítica no Midiativismo? Quando a invasão do espaço privado no público ultrapassa esses limites? Como toda pergunta que norteia um tema importante e dinâmico, a resposta é necessariamente uma discussão contínua, nunca monossilábica. Um elemento premente, contudo, é: quem aparece mais.
Ao se lidar com a mídia, é importante pensar em quem ou o quê está no centro da pauta. As performances supracitadas brincam justamente com isso, prevendo e subvertendo a pauta, colocando a mídia justamente no centro da discussão. Um indicativo de quando o limite foi cruzado é quando o centro da pauta torna-se não a mídia, não a crítica, mas o performer em si. Joey Skaggs é um exemplo de pessoa que transita entre os extremos: ele faz performances que colocam, por exemplo, o veículo televisivo em ênfase, para depois revelar seus truques e aparecer. Isso acontece porque Skaggs é um showman. Mas esse jogo midiático é tão forte em sua pessoa que tornou-se seu estilo, sua assinatura, o que pode desvalidar a reflexão do limite. Para resolver o impasse, nada melhor do que lembrar de Remi Gaillard.
Gaillard é um francês que ficou notório pelo Youtube, em um vídeo 2007 que ensinava uma maneira de conseguir refeições de graça no McDonald’s, ao manipular a fila de espera do sistema de Drive Thru. A fama acumulou-se exponencialmente com vídeos como o em que veste-se de jogador de futebol e infiltra-se no time da França no final de um campeonato nacional. Remi, “O Impostor”, segura a taça, encosta no então presidente e dá autógrafos. Em outros vídeos, decide tirar férias nas ruas de Paris, acampando em frente ao Rio Sena e nadando em fontes públicas. Não poderia deixar, também, de impersonar Rocky em um supermercado, apropriando-se da esteira do caixa para exercitar-se e invadindo sorrateiramente o freezer do departamento de carnes para treinar seus ganchos.
É importante lembrar e situar o performer Remi Gaillard porque ele ultrapassa limites com tamanha intensidade que chega a ser caricatural. Se é um performer que sabe usar a mídia para veicular suas ações, que reforçam constantemente a invasão do privado no público, não é um midiativista porque qualquer possível reflexão de seus atos perde-se no humor e qualquer crítica dilui-se em sua imagem, que é sempre o foco. Prova maior desse desprendimento crítico é justamente a intenção de Gaillard: aparecer.
Com o extremo exemplificado, fica mais fácil pensar em ações que procuram – e conseguem – equilibrar-se no tal limite do Midiativismo. Se Joey Skaggs alterna a atenção entre a mídia e si mesmo e Remi Gaillard sempre corre para o holofote, os Yes Men fazem um jogo mais interessante: deslizam a atenção da mídia para certas grandes organizações, comprometendo a imagem tanto dos veículos jornalísticos como das empresas de grande porte.
Um dos mais famosos atos do grupo é pertinente para esta reflexão: quando do vigésimo aniversário do Desastre de Bhopal – evento em que cerca de 25 mil pessoas morreram e centenas de milhares foram prejudicados por pesticidas tóxicos liberados pela empresa Union Carbide na cidade indiana –, os Yes Men montaram um site falso da Dow Chemical, que comprara a Union Carbide, com informações obviamente falsas. Seguindo com a pressão, Andy Bichlbaum, do grupo, passou-se por um assessor da Dow Chemical e, ao vivo no canal BBC World, alegou que a Dow planejava liquidar a Union Carbide e investir 12 bilhões de dólares na saúde dos que foram afetados em Bhopal.
Enquanto Remi apareceu no Youtube e fez rir e Skaggs apareceu na TV e fez pensar, os Yes Men agiram politicamente, colocando a Dow Chemical em uma situação extremamente sensível. Transcenderam, portanto, o limite entre o humor e a reflexão no Midiativismo para realizar uma ação política concreta, não deixando de aparecer um pouco.
Um elemento em especial que faz do Midiativismo um tema interessante é que ele não só retrata a realidade (o que o torna bom objeto de estudo) como teima em alterá-la, da forma a mais criativa o possível. Desse modo, o assunto involve uma complexidade que faz qualquer reflexão carecer de base artística, jornalística e tecnológica para ser, no mínimo, fundamentada. Isso não implica, contudo, um tema de impossível aproximação, sendo importante, sim, estudar as incursões midiativistas com uma perspectiva crítica.
[1] Vídeo do youtube “ABEL RAISES CAIN – TRAILER”. Disponível em http://www.youtube.com/watch?v=d_8sgECu_Yg. Acesso em 02/07/09
[2] Tentativa no site http://www.google.com.br/language_tools?hl=pt-BR em 02/07/09
[3] MIELI, Silvio. Contexto Histórico/Aurora do Midiartivismo. p.3